terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Tá bem infame, né? (pra inglês ver)


Há na capital de São Paulo um distrito e bairro chamado TREMEMBÉ. E também uma cidade com o mesmo nome no interior deste Estado. E nos Estados do Ceará, Piauí e Maranhão houve tribo conhecida por este mesmo nome.

A palavra vem do Tupi, antiga língua indígena falada no Brasil na época de seu descobrimento, e que assim foi por mais de 200 anos(!) por habitantes das cidades brasileiras, doutrinada pelos Jesuítas como Brasílica, uma normatização gramatizada da língua mais falada de costa a costa neste "novo" mundo. Há muitos outros bairros, cidades, ruas e rios nomeados desbravadores bandeirantes por todo o Brasil e que derivam dessa língua.

Etimologicamente, segundo Teodoro Sampaio, a palavra deriva de "tiri" (= escoar) + "membeka" (= molemente), donde tere-membé (no falar dos novos brasileiros).

O significado, portanto, teria a ver com quantidade de água empoçada ou represada, que para alguns (estudiosos do tupi como Silveira Bueno, Luiz Caldas Tibiriçá, Antônio Geraldo da Cunha parecem concordar com Teodoro Sampaio) tremembé quer dizer "pântano, brejo, área alagada, terreno encharcado, charco, atoleiro", enquanto outros (certamente os orgulhosos moradores da estância turística) preferem entender como "água boa/saudável de se beber, que escorre suavemente (garganta abaixo, obviamente)"...

Para a maioria dos brasileiros, que falam somente português, Tremembé é apenas um nome como outro qualquer, principalmente para os paulistanos.

No caso, passando por este bairro da zona norte da imensa cidade de São Paulo, fui surpreendido por uma placa (que aparece na foto abaixo) de uma loja e depósito de bebidas, e que achei sensacional: TREMEM BEER.


Para os que só sabem ler português, a expressão soa como o nome do bairro, já que os "R"s finais costumam ser "engolidos" na fala comum, e os dois "E"s seguidos tornariam o som da letra mais longo e aberto, que teria o mesmo efeito fonético do acento agudo sobre um "E" só. Ou seja, apesar da grafia estranha, o nome do estabelecimento é uma homenagem ao próprio bairro.

Mas para os que sabem um pouquinho de inglês, logo percebem que "beer" significa "cerveja", e identificam de imediato o local como um ponto de referência para os amantes da gelada bebida, e que não são poucos!

O toque magistral deste trocadilho é que ele serve de AVISO.

Pois a primeira parte da expressão vem do verbo "tremer", conjugado no presente indicativo para a terceira pessoa do plural (que no nosso caso serve para "vocês", ou seja, aqueles que estão lendo).

Os sedentos e apreciadores da bebida dourada tremerão de vontade e de emoção pelo desejo despertado e por ficar fácil de lembrarem onde buscar.

Os mais sadios e espertos tremerão ao se darem conta da existência de mais um ponto de distribuição da bebida alcoólica disponível na praça.

Um grande achado! Não o local ou a placa em si, mas sim o trocadilho poliglota, de rara ocorrência e de extrema felicidade!



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Bônus:


Pergunta 1 :

Once more?

( = mais uma ? [com sotaque inglês americano])


Resposta 1 :

[give] Three me beer[s]

( = 3 cerveja [pra] mim )



Pergunta 2 :

Onde [cê] mora?

(com sotaque do interior paulista/mineiro, soa como em 1)


Resposta 2 :

[em] Tremembé

(praticamente a mesma resposta de 1 rsrs)


8 comentários:

Lis. disse...

Olá André...

Aquela região conheço muito bem por ter morado muitos anos no bairro de Sant'ana. E sei os chacos ou os chamados mangues são comuns naquela área. O próprio shopping Center Norte recebeu durantes muitos e muitos anos entulho para ser aterrado, assim como outros bairros nas imediações também. Nomes e outras associações aos locais representam uma forma criativa de compor um ponto ou local inusitado que marque sua presença na boca e na cabeça do povo.

É isso.

Vanna disse...

Amiro sempre a criatividade. Como vc bem disse no texto, é preciso um pouco d conhecimento p/ entender a intenção na criação.
Bjs

Andre Martin disse...


Vanna:


Pessoalmente acho que quem criou a "obra-prima" não foi tão intencional assim, nem foi tão profundo a priori na análise dos desdobramentos. Às vezes, o artista nem pensa, apenas cria, e a obra flui...

A criatividade é reconhecida. Mas é preciso conhecimento para o entendimento da criação. Esta foi minha intenção ao compartilhar meu entendimento neste post: mostrar a intensidade possível das possibilidades de cada criação.

Há sempre a parte criativa que participa da criação com sua interpretação, sempre diversa, seja individual ou coletiva.

Andre Martin disse...


Lis.:


Concordo. Também acho que a palavra deriva de terreno alagadiço. Mas reconheço a ótima interpretação (distorção propositiva) que faz uma palavra de conotação pejorativa tornar-se valorizada! E ganha meus aplausos! rsrs

Sim, a cidade de São Paulo ocupou a região inundável às margens do rio, "arretou" (= endireitou, canalizou) o rio Tietê que antes era todo "curvilíneo" (= sinuoso). E depois a população agora reclama quando o rio reclama sua área para depositar a água que chega de tantas chuvas!...

Ah, essa eterna incompreensão humana e inconformismo, que pouco enxerga além do que se mostra e vem à tona!...

Erika disse...

Fico impressionada com a sua capacidade de perceber essas infamidades! Adorei o post, deu vontade e ir em Tremembé, sentar no Tremem Beer e pedir Three me beer! rs.

Andre Martin disse...


Erika:


Hahahaha... E beber até ter delirus tremem, né? rsrs

Carmem L Vilanova disse...

Meu caro André...
Definitivamente és um mago das palavras e dos trocadilhos...
Adorei o post...
Beijos, flores e muitos sorrisos.. sempre!

Andre Martin disse...


Carmem:


Assim você me deixa sem palavras!

Fico feliz que tenha gente (como você) que goste!

Obrigado.